segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cream Teen









Tinhas os braços longos de moleque crescendo. As pálpebras de sono, de calor, de sem medo. Na cama o pedaço de bolo olhava para ele com olhos de atriz pornô.
E salivas descendo. Um copo de leite escorrendo entre os dedos e a primeira tatuagem, pensei : igual vídeo game, bonecos correndo. O quarto trancado e caixas de som com zumbidos estranhos, pornográficos, como eu ia dizendo. Eu sou o poster de ensaios didáticos, o suborno pregado na parede de Safo.












domingo, 4 de dezembro de 2011

Cap. MMXVII


logo após a febre

( NOTA DO AUTOR : capítulo dedicado aos leitores de línguas afiadas )


Um leve sopro me acompanhava. Ou era um vento. Ah sim, uma lembrança. Não consigo saber ao certo, o caminho está entulhado e eu tenho que desviar de tudo. Uma águia dá um rasante desviando um cume de lixo e eu penso que há tempos não via aquilo. Em 2017 as coisas não tinham mais nomes, alguns anos antes já não tinham...

"dê você a minha lembrança o nome mais cruel que possa lembrar"

Eu tinha que chegar onde o Homem vendia carnes e objetos pontiagudos. Não me interessava a origem e o motivo Dele estar aqui. Virei a esquina e dei de cara com outros ateando fogo a roupas e também não dei bola ao que vejo todo dia. A porta vermelha inconfundível, as portas do Atirador de Facas.

Que se dane se meu peito está aberto, amarrado feito um lixo lá no alto do monte. Vim mostrar minha dor. Todo dia é a mesma coisa, um quilo e meio de fígado cortado bem fino, as minhas entranhas...

"Está aqui, um quilo e meio de bife cortado fino, Prometeu!"

Todo Deus tem seus dias de açougueiro.





quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Scarlett em vermelho.

Para Scarlett Johansson



Scarlett vai fazer outro filme.
Uma vez Scarlett rasgou a tela com seu olho de gato.
E Tokyo fez-se luz.
E Barcelona fez-se luz.
E Londres fez-se luz.
E Kiev fez-se luz.
E Marte fez-se luz
Scarlett está nua no espelho.
O olho da tela rasga o gato.





terça-feira, 22 de novembro de 2011

Jack dá nome aos bois




Jack tem no bolso uma meia dúzia de figurinhas da copa passada, mais meia dúzia de bolinhas de gude, uma bola de chicletes mascado... e mais cinco na barriga - Jack engole chicletes, é um menino à moda antiga. Gosta dos sapatos bem longe dele e desvia inconsciente o olhar das vitrines com tênis exageradamente coloridos. Jack está parado lá na cerca. Um pião acaba de rodopiar e cair. Jack sorri e encara cada um deles. Eu sei que Jack está dando nome aos bois - o acalanto de um menino à moda antiga, antes de qualquer abate.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

o jornal desta manhã






o amor é aniquilado depois que foi encontrado entre
pijamas o mundo onde as fichas caem






terça-feira, 15 de novembro de 2011

para os dias em que você foi embora


Você está perdida
não, eu perdi você
um dedo um filme uma mordida

as folhas caídas de um ipê

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Troca



eu tenho no bolso

um palito de picolé premiado
que vou te dar no feriado

a troco do desgosto
de um amor sem esforço
do qual sobrou só o osso

chupado até o talo
chutado no embalo

resto de almoço



terça-feira, 1 de novembro de 2011

o amor é duas crianças






dois animaizinhos correndo na estrada como esquilos
só existem esquilos na minha imaginação
( eu suspiro )
seu amor dura o tempo de uma bolha de sabão

e o meu espalha na cara feito bola de chicletes super menta
nada importa se é mais bonito falando assim anos oitenta

duas bolas de sorvete dentro do coração
derretem apertadas na minha mão


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

das mentiras que eu conto






meu silêncio não te engana, não é ?
mentira tem perna curta
e essa minha : manca feito saci

mas.

para ser exatamente o que se é
gritar um pouco qualquer coração furta-cor
resta-me em covardia e dor
ir ver você ali
na esquina do meu amor


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

submundo




o meu coração correndo sangue de strass
brilhando falso em drinks vermelhos

droga de festas em mansão de superstars
derramando dor em peles de coelho

exalando cheiro pelos becos do bar
rindo da minha cara quebrada no espelho





segunda-feira, 17 de outubro de 2011

o dedo.






No caminho do supermercado pensei comigo que todas as meninas da rua tinham um sorriso no canto dos lábios, numa espécie de deboche coletivo. Comprei a caixa de sucrilhos com um labirinto desenhado atrás para continuar jogando. E quando eu chegar em casa vou virar o leite no chão depois que seu dedo cair dentro do meu prato. Porque agora eu sinto nojo de qualquer um dos seus charmes.

sábado, 8 de outubro de 2011

entrega de livros 07/10.





Um barulho de creque-creque-creque que me deixava um tanto inquieta. O livro com as bordas alaranjadas pelo hábito incoerente de devorar cenouras cruas enquanto lia. Seth era um coelho. Ele catou as nossas coisas em cima da mesa e deixou só a marca dos seus cotovelos. Eu me debrucei enquanto ele caminhava e consegui ver as horas. Estávamos atrasados feito o sol em manhã nublada. Ele me olhou e disse alegre :
" Não se preocupe"
" Você vai devolver os livros assim ?"
" Assim como ?"
" Assim laranja."
Seth largou a mochila no chão e abriu um por um, e a cada um por um ele me olhava com um sorriso no canto do lábio. No último ele piscou.
" Estão engraçados."
Não dá para se preocupar mesmo com tanta leveza em ser um coelho. Acho que a bibliotecária também vai se deixar levar.







quarta-feira, 5 de outubro de 2011

em segundos





sentindo você deitando sobre o meu peito com o cheiro de picolé vermelho na boca
lambido há tão pouco tempo que as batidas disparam em iminente ataque cardíaco
sempre soube que o amor foi aos poucos entupindo as veias estreitas do meu coração
.
.
.
.
.

.
.

domingo, 2 de outubro de 2011

cadeiras enfileiradas.



As cadeiras enfileiradas da varanda que viravam trem, nave espacial, barcos, ônibus escolar, tanque de guerra, motocicletas...
.. E quando as brigas começavam elas voltavam a ser simples cadeiras desbotadas. Tudo era por conta do grande comandante das frotas : meu irmão, general-comandante-oficial-capitão incontestável do bairro.
Ontem foi aquela palhaçada! Joaninha apareceu vestida de bailarina e com seus tênis que acendem luzes, no alto dos seus quatro anos. E eis que Joaninha ganhou o sorteio e comandaria a frota do navio viking que invadiria o Brasil. Meu irmão é o maior ditador que eu conheço e disse que comandantes não andam por aí de cor-de-rosa. Novo sorteio e berros de Joaninha, que parecia uma espada riscando o ar.
Marina, a loira da rua e com olhos fulminantes de tão azuis, era a vencedora. Meu irmão disse que não sabia onde estava com a cabeça quando fez essa regra ridícula de sorteio, porque um dia antes ele tinha visto Marina beijar o banner do Robert Pattinson bem na boca ali na banquinha.
Marina disse que meu irmão é um feio e meu irmão desmanchou a chutes o barco viking.
E assim terminam todos sentados em cadeiras na varanda, com a cara enferruscada, feito vikings. E todo dia é assim, mas no outro dia todo mundo volta para enfileirar cadeiras.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

para as luzes amarelo-cinzentas


D. fechou a porta e deixou atrás o som de cem mil trancas. Não estava irritado com tudo, nem tinha a verve dos maus pensamentos, mas essa solidão que voltar das ruas lotadas infringiam nele deixavam esse rastro. Sentia o hálito das entradas das casas e os vidros das janelas que esfumaçavam pessoas. Já havia notado que S. havia chegado. O frêmito voltava e arqueava suas costas. As decisões - elas pediam para serem tomadas, velozes como patins no gelo. Chegou na ante-sala e olhou para a mesa onde uma xícara ainda cheia de chá repousava sozinha, deixando a sensação de ter sido esquecida às pressas. Viu também M. passar com uma cesta de frutas adocicadas pela porta, sem notá-lo, como costume. Pensou como seria esmaecer no amarelo-cinzento das luzes da noite e sair dali sem precisar contar o inevitável. "Querida S., amar é para os leigos".

terça-feira, 20 de setembro de 2011

máquina do tempo




a agulha espetada no sofá furou seu olho
você não vê nada
.
meu corpo caído
meu coração ensanguentado
meu filme proibido

o festim do meu amor
no céu estrelado





sexta-feira, 16 de setembro de 2011

para você, cortar os pulsos



esta chuva de napalm esta chuva de arrepios
há duas quadras e meia deste
apartamento
quase vazio

onde um corpo em cimento
e apocalipse
é marcado com pegadas de vaca
no cio

este corpo animal este corpo de merda
dois centímetros de um faca
que corta
na medida certa



domingo, 11 de setembro de 2011

os becos de Paris



um pelotão de bicicletas brilhava meu cabelo ruivo através de aros dourados, naqueles tempos. chuva e asfalto resplandecendo gotículas de um chão estrelado e marcas de rodas nas voltas ciclistas. eu tinha lá minha vergonha dos cabelos cor de laranjas caídas e da bola de futebol. dada a ingleses, latinos e inadaptados à bibliotecas. Paris não era sempre essa festa toda me deixando nervoso assim. e meninos com os dedos adocicando páginas e mais páginas. e o rosto salpicado me dava nos nervos. estavam todos absorvidos pela volta e eu olhava o mundo redondo e o cabelo encharcado de fogo. havia uns café abarrotados e uns escritores discutindo feio. um cinema um tanto abarrotado também de mentes pensando e um arco depois. se eu andar bem devagar ninguém me nota com tanta luz.

sábado, 3 de setembro de 2011

tenho os nervos também de aços



Impacientemente esperando : nada. Onde os relógios continuam tiquetaqueando viciosamente. O mar longínquo espelhando uma cor assustada, livre para deslizar navios afundados em falsas calmarias. Tenho os nervos também de aços, carcomidos pelo tempo que constrói conformidade.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

John, Bob e a Televisão.


A televisão ficava num galpão, do lado de onde ficavam as vacas. E você tinha que caminhar um bocado para ver alguns programas, alguns programas porque nem todos eram permitidos pelo meu pai, dado a livros e revistas geográficas universais. Traços pelos quais fomos apanhados, em uma rede invisível e brilhosa. No galpão do lado das vacas tinha uma pintura de dois homens de terno e gravata e eu falava para os meus amigos ' meu pai e meu tio', mas para falar bem a verdade não sabia quem era, eram dois homens e eu bem podia dizer que era qualquer um, os mais conhecidos. Não tinha graça mesmo essa televisão e a parte mais legal era seguir as vacas depois para o pasto. Fuçando trinta anos depois, descubro a pintura desbotada em um canto qualquer e vou até o meu pai, um tanto intrigada :
" Pai, por que diabos tinha uma pintura do John e do Bob Kennedy no galpão da televisão ?"
" porque era o galpão da televisão!"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A soleira da porta.




Ele arrebenta minha cara quando chega. Eu tinha comprado o perfume, o pijama, os copos azuis, balas, baixado filmes, comprado congelados, escrito o nome dele nos vãos da porta, nas folhas das plantas, no cinzeiro, na lente do meu óculos, na borra do café, no sabonete, nos relógio de parede, atrás do meu joelho. E ele arrebentou minha cara quando chegou. Eu não estou mais em casa, nem no mundo escrevendo. Maldigo o dia que ele não me encontra sentada na soleira da porta de sapatos novos. E arrebenta minha cara de desprezo.

sábado, 6 de agosto de 2011

o buraco do olho




cortei fora a pele elástica feito material de linha esportiva datada 76 guerra-fria seus olhos frouxos brilharam tanta verdade que explodiram em supernova e de lá para cá só luz mas nada existe igual minha pele sem pele minha pele caindo seus olhos brilhando brilhando brilhando felizes mas desapareceram no buraco negro sugando sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim sem fim fim.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sombra




Não havia nada depois do corvo cruzar minha frente, negro como o olho do mundo, vistoso como um só rumo, resignado. As lonas que cobriam as telhas se transformaram em velas com o vento incessante e seguiram inquietas batendo no céu que se colocava quase inalcançável. Levei uma vida inteira para entender seu caminho sem volta - onde o sol não chega, batendo nas costas livres do muro de uma casa qualquer.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

sunlight



sei de tua vida três linhas do sol

a fumaça de um dia amanhecido no meu parapeito
refletido imenso ao meu redor
sem vestígio algum, sem acento
o futuro
se esgueira
perplexo
na luz que causou essa cegueira

terça-feira, 12 de julho de 2011

Que horas são ?


Descemos a viela indo até o descampado onde os fazendeiros jogavam os restos dos bois. Sabíamos cada decomposição, cada cheiro, cada resto de osso lambido até o tutano pelos cachorros vadios que zanzavam por lá. Um deles, com tufos de pêlo lutando heróicos contra a sarna, chamávamos de Cão.
Ele abanou o rabo entre as tábuas quando nos viu cruzando a cerca.
" Tá gordo e roliço como um porco esse Cão!"
" mas é feio, hein ?"
Luis esticou o braço e apontou na diagonal :
" Olha lá, Cris, uma cabeça nova!"
Corremos lá para ver o tamanho do estrago. Uma cabeça sem chifres e olhos esbugalhados era a novidade, coberta de moscas ensandecidas.
"O bicho não teve nem chance."
" Não mesmo."
Peguei uma vareta e cutuquei a cabeça bem no nariz e milhões de larvas enlouqueceram saltando para fora.
" Está recheada!"
" Parece salgadinho..."
Ficamos ali olhando aquele negócio se mexer sem vida por alguns minutos, cutucando e rindo do jeito dela.
" Que horas são, Luis ?"
Ele olhou o relógio e contou os números porque não conseguia saber as horas assim de supetão e isso me fazia sorrir.
" Acho que é quase seis."
" Então temos que ir."
Passamos a cerca, não sem antes fazer festinha com Cão que abanava o rabo de tufos, porque Cão bem sabia que a gente voltava.
E voltávamos mesmo, com a mesma desculpa de ver ossos cheios de larvas, escondendo a vontade verdadeira de só querer estar junto, seja lá para o que for.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

meu coração, que batia tão rápido.




Olhei pelo buraco da fechadura e meu coração bateu como coração de pintinho. Eu tinha sido devorado pelo bilhete que ela me deixou na caderneta e a vendo comer daquele jeito me devorava duas vezes. Na mesa tinha um copo cheio de algo que borbulhava e eu só enxergava pela metade, mas aquele borbulho me lembrava o cinema e o barulho do projetor que parecia o barulho de esquilos mastigando nozes. E eu fiquei ali. Ela cortava aquilo e aquilo sangrava e escorria pela boca dela, era nojento, mas era mais assustador do que nojento e eu não sentia nojo. E meu coração de pintinho batia tão rápido que eu não conseguia mais escutar. Não sei porque fiquei lá olhando por aquele pedacinho de mundo e não tirava o olho, não gostava da cena e não gostava mais dela, não nessa situação. Uma menina assim tão bonita comendo aquilo sem nem pensar, sem nem atinar, sentada na mesa grande com aquela pose de princesa, com os dentes vermelhos como rubis. Foi quando senti enfraquecer meu coração e as pernas amolecerem, senti um suor escorrer feito mar pelo meu corpo e tirei o olho do pedaço de mundo, olhando para o meu peito. Só vi o buraco que ela deixou ali e o mar não era esverdeado como eu vi no cinema, era escarlate feito suas unhas. E morri esmagado como um coração de pintinho entre dedos fortes, enquanto ela comia meu coração sentada na mesa grande.






sexta-feira, 10 de junho de 2011

Almoço, 13:00. Bem depois do pólo norte derreter.



Não consigo me acostumar com esses ovos em cápsulas, rosqueados com tampas que parecem com tampas de garrafas antigas. Temperados e coloridos de acordo com cada sabor, queijo, chilli, pizza, páprica, galinha caipira. "Galinha?". Ficam milimetricamente redondos como se o sol tivesse caído bem no meio do mar congelado onde dizem, ficava o pólo norte. "Onde os ursos brancos nadavam atrás de sua comida". Há um mês o noticiário mostra os hindus chorando seu Deus morto, desesperados, com a mão no rosto pelas ruas sujas de Mumbai, depois que todo o rebanho do planeta foi dizimado por mais uma peste qualquer. Correria e superprodução de carneiros, porcos e aves para saciar a vontade carnívora do planeta. " Que serão dizimados por outra peste qualquer". Um mês atrás ela saiu para visitar os bebês, não voltou e eu não entendi nada. Toca o telefone e dizem " Só podemos nos responsabilizar por bebês sem amparo até os seis meses de produção, mas no caso do senhor..." Desligo. Os rumores do que eles fazem com os bebês não são bons. Não me importo. Frio como o pólo norte há cinquenta anos atrás. "Onde um urso branco rasga a pele de um bebê leão marinho sem dó, é seu alimento". Dentro do prato preto aquele ovo parece um buraco no mundo. Esfriou, enquanto eu observava crianças indianas sendo consoladas por autoridades. Três meninas e um menino. Não ligo de volta. A luz que indica visitante entrando no edifício acende na minha cara. " Bem na hora do almoço". Desligo a tv, porque não aguento tanto escândalo por causa de um Deus morto. Batem na porta. Estou desanimado. Peço a identificação ocular. É ela.
- Ligaram do centro genético.
- Não tenho ido até lá...
- Você saiu para ir até lá...
- Mas não fui. Por que você...?
- Não quero mais.
- E o que eles vão fazer ?
- Você também não se importa.
Desânimo. Visita à toa. Desisto do ovo. " Nada mais poderá estragar minha vida". Recebo o boletim do dia durante o banho. " Por que diabos assinei essa porcaria ?".
" Não é recomendado andar sem proteção hoje na cidade, índice de poluição acima do recomendado..."
"Merda!"
" E na Índia...". Apago. " Porra, malditos indianos, que saco." Agora só me resta sair de casa, mas tenho que vestir essas roupas ridículas e essa máscara sufocante. Desisto. Sento na frente da tv e um canal de inutilidades mostra urso polares adormecidos há cinquenta anos. Adormeço.

domingo, 5 de junho de 2011

Zoom





Luiza agora tinha um namorado. Loiro, alto e com uns olhos azuis preguiçosos. Zoom estava estranho, ressabiado, seus pêlos caiam em escala sufocante. O tapete branco da sala cuspia agora bolas cinzas como se fosse uma torneira. Luiza dava uma volta pela casa, passava o aspirador na sala, dava outra volta pela casa e lá estavam as bolas cinzas no tapete. Luiza olhava para o lado e Zoom olhava para ela, parado como uma esfinge, na frente da porta. E ela não conseguia entender de onde um gato de pêlo curto tirava tanto pêlo. E ela não via Zoom no tapete. De onde esse gato tem tanto pêlo?
Marcos chegava a noitinha, trazendo sempre um pacote de pão com cheiro doce. Mas Zoom achava ele um boboca, reservando um olhar felino bem cruel para aqueles olhos esmaecidos. Zoom achava aquele cheiro doce enjoativo.
Depois da porta fechada, Zoom andou em círculos pelo tapete a madrugada toda.
Pela manhã, Luiza tinha um tapete cinza e um pequeno mostrinho de olhos feridos na sua sala, sem pêlos. Ela deu um grito e mandou seu namorado ir embora. E que nunca mais voltasse.












quinta-feira, 2 de junho de 2011

Clássico.






Risadas demoníacas quando o seu time perde é uma das minhas vinganças preferidas. Domingo tem jogo e eu vou estar sentada no sofá com um bando de demônios bem preparados. E foi você que abriu a porta do inferno, não se queixe.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Desengano.





Levei de seus olhos aquela negra previsão do futuro. Disfarçado em casa, em flores pelos cantos, em gatos passeando no teto. E eu desmaiava nos vincos que se acumulam em dias que, assim, transbordavam verdade. Não se engane, mesmo assim nada mudou. Relógio sem ponteiros. Asas sem função, paradas. As linhas da minha mão seguem um rumo exato. E não se engane. Nada mudou. E se há um segundo que se preze em um coração estagnado, será de percepção. Porque nada mudou. Aquelas asas, sem mais mistérios, pousaram bem ao seu lado. Brilhando.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O campo






Em um campo de papiros flamejantes, vigiado pelo mais bonito dos demônios, amei você.

O que é o passado senão a fumaça etérea desse livro atrás de mim ?
O que é o passado senão o olhar demoníaco que me acompanhou até o fim ?

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Nascer do Sol



Diana come maquiagem e enrubesce dez anos, enquanto todos olham suas olheiras uniformes e seu salto 15. Diana não adormece. Seus sonhos são arregalados e suas pernas estão formigando, enquanto homens sem dó vigiam suas pérolas aniquiladas. Diana não compreende. Levantar seria uma lástima e o veludo vermelho enternece. Diana sofre de náuseas, moribunda e dourada, enquanto garçons com asas servem copos de líquidos ensandecidos. Diana sofre calada. Um grito assusta os velhos perfilados e Diana olha para o lado. Um ranger de dentes define o caos de uma vida estatelada. Diana dorme, definitivamente e empoçada.

história de ninar



um lobo vestido de vampiro
bate de porta em porta pedindo doce e o que mais tiver
na primeira casa, em frente ao milharal, um porquinho
abre e o enfrenta à mão cheia com balas prateadas de anis
na segunda casa, em frente a madeireira, um porco sem asas
abre e o enfrenta a pão de alho, na falta precisa de adocicados terminais
na terceira casa, cheirando churrasco, em frente ao lamaçal,
caçadores comem costeletas e mousses, enquanto o lobo é
o homem do lobo do homem-porco

quarta-feira, 13 de abril de 2011

bolinhas de gude, de Laís para Chico.








Chico tinha seis anos quando um par de olhos castanhos quase pretos brilhavam na sua cara, como bolinhas de gude vitoriosas, gritando para ele se comportar como um homem. As palavras soavam estranhas e perdidas neste espaço dos seis anos, Chico não entendia como uma menina de cabelos retintos e pele branca, da cor de travesseiros novos, poderia fazer seus ouvidos doerem igualzinho quando o avô ligava o carro com todo mundo já lá dentro. E Laís mandava como a mãe mandava a empregada enxugar o chão, de olhos arregalados e coração endurecido. Só que Laís também sabia ser menina e deixava uma escova de dente para ser compartilhada ou um bombom recheado, fingindo nem saber de Chico. Sozinhos, ela mandava e desmandava, transformando o medo em amor, sem nenhum entender o que era isso - mal sabiam eles que ninguém nunca vai entender. Durante três anos as bolinhas de gude batiam contra Chico, escovas de dente eram desgastadas e bombons sujavam o uniforme da escola. Até que Laís se foi e nenhum adulto explicou porque tudo se vai. O amor, escovas de dente, bombons. E Laís.
Ontem a noite perguntei porque Chico é calado e ele me disse :
" Estou com saudade de uma pessoa, mas não posso dizer quem."






quinta-feira, 7 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

espinhas de peixe




Encontrei você sendo chuva e vulcão, escrevendo laços em uma caderneta amassada. Com um olho aberto e o outro fechado, acreditei dando mordidas em espinhas de peixe que transpassaram minha garganta, sufocando. Depois acreditei mais um pouco e abri as portas, a garganta e o outro olho. Mas já estava cega, já estava este morcego anêmico batendo contra a parede. Esperneando nos vãos, com estes espinhos que se instalaram como fim no peito, chamando isso de amor. E, enfim, desacreditei.

terça-feira, 22 de março de 2011

O cão





as artimanhas monstruosas me fogem a definição
deixando os pêlos nojentos no caminho de uma história sem coração

lambe os defeitos de uma alma perdida na escuridão
se alimentando dos restos de minha total solidão

prostrado diante do prato em quatro patas como qualquer cão
afia as unhas no teto do meu porão






terça-feira, 15 de março de 2011

Dois Corações.




nas suas voltas
espero no olho do furacão
crente que você possa me
amar
em qualquer canto
de um outro
seu
coração

isso explica meu sorriso à toa
com sons ciclones no meu ouvido Noa Noa

uma campainha, um zumbido, um telefone

é o seu outro coração
truque de minhas noites insones







sábado, 12 de março de 2011

avenida



Costumava cortar os braços para chamar a atenção de Deus. Vênus pintando o chão de um vermelho tão entediante, cor do seu ipad smart, extrapolado em e-books geniais lidos enquanto sangra devagarinho. Tem no armário metros de fita micropore 3M com a qual ela aplaca os traços para chamar a atenção Dele... se desconfia de um certo olhar. Cor de pele. Suicídio, que besteira, nada disso. Um perfume de um doce cortante cheira junto. Cheira junto. Neste exato momento pensa em se desconectar. Tenho certeza que Ele dorme. E eu vou sair para comprar um estilete.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Filme Japonês


Essa casa sempre me deu medo, mas esse meu ar esquivo não permite queixas. Ontem a noite, quando tudo parecia mais escuro do que estava, eu - falando assim por falar - acho que vi uma dessas crianças orientais esbranquiçadas pela morte dançando no corredor, segurando pequenos, deixe-me ver... pareciam... crayons nas mãos. Óbvio que ela estava com os pés molhados e tinha os cabelos terrivelmente escorridos, o que me fez acreditar com vivacidade na própria insanidade ou em filmes japoneses.
Agora tenho que levantar. Olhar o teto é esporte para escritores.
Jogo as pernas no chão sem vontade, estou torpe feito o que sou. A claridade que vem lá de fora, ihh...
Desisto de colocar roupas.
E a porta do quarto está pesada para mãos tão preguiçosas.
Meu olhar primeiro vai do chão para o olhar seguinte. E páro no primeiro instante.
Todas as paredes do corredor estão desenhadas na altura da minha cintura.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

passeio


coberta por pêlos de um monstro pixalado
deslizo sobre um tobogã desde um céu aquarelado
seus olhos recém pintados de musa endiabrada
divergem dos meus ensanguentados

tapetes de lã de uma ovelha sagrada
me levam ao encontro
do mar

assombrado

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Azul Elétrico



no céu
raios adocicados
desvernizam
o que acham
de você

em pé
contando
segredos
no meu ouvido

ouço
o tilintar de uma chuva
ácida sobre a cidade
que chamaram de Amor
.
.
.
.
.
.
.
.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

amor, teimosia e morte.



tenho pensado tanto em você
que ouço seu cabelo crescer
sua veia dilatar
seu olhar titubear

então meu amor insiste em brotar...

não entendendo o ditado
de que se meu coração
tivesse quebrado
eu estava morto e enterrado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

as asas nos pés eu deixo para o próximo verão

para ela


tenho andado distraída
com as pernas das meninas
e letras de música cheias de malícia
algodão-doce azul no dente
e mordidas bem ácidas
para meninos de boy band
vestidos em rosácea
minha fala está estranha
e o que eu escrevo tem coreografia
para você dançar de manhã
lendo na cozinha



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O coração de Juliet


O coração de Juliet é uma planta carnívora em
Marte sob vigilância atenta de robôs da Nasa.
O coração de Juliet é um cérebro aberto por
bisturis de cientistas loiros.
O coração de Juliet é uma bolha de sabão
alcançando o teto.
O coração de Juliet é uma faca de pão com dois gumes.
O coração de Juliet é coração de cão, abelha,
gato, lesma, escorpião, pinguim, Juliet.
O coração de Juliet é uma criança perdida.
O coração de Juliet é uma criança.
O coração de Juliet é um nervo arrebentado.
O coração de Juliet é um telefonema.
O coração de Juliet é um só.
O coração de Juliet é um.
O coração de Juliet é.
coração.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

vitrines


ilusões pintadas na unha em rosa
bela como uma delas
triste como só assim pode ser
e sei que as meninas beirando o ridículo
iludem ainda mais em manequins de dedo em riste
pois no dia que você me deixa
eu possuo um único momento tatuado
no meio de rabiscos que não são nada
assim mesmo alardeando meu coração : você.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

jantinha


se eu dei colheradas nesse gororoba que chamam amor
por que perco meu tempo reclamando do amargor ?
se agora sofro de indigestão
consciência pesada, cicatriz, adivinhação
eu fui bem avisada por almas perfeitas
que comem na fina de nobres receitas
"não se envolva nesse impasse,
viva para comer só alface".

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Hollywood-Sp





deitada em um colchão novo com neve encarnada retirado de sua cama agora tatame vi seu dorso pela fresta da porta a pentear o cabelo liso descendo pelas costas nuas pintadas com bolinhas feitas com a mais fina pictomelanina em versos que desciam pelas minhas pernas encolhidas pela negativa constante de um sentimento malfadado a simples olhares por vielas estreitas que mesmo assim explode em bilheterias de um amor arrasa-quarteirão

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Himalaia




Para mim só há uma parâmetro da felicidade descomunal, lisérgica,
épica, única mão de Deus no mundo -
aquela que só você poderia ter proporcionado.
Foi você que espelhou o amor.

E eu me resignei com a neve sobe meus pés,
feliz de ter vislumbrado o que poderia ter sido.
Ciente do frio, da dor e da existência.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Visita



Tenho ossos e veias aparecendo. Um olhar amanhecendo atordoado, anoitecendo contra o sol.
Sei de tudo o que acontece, carros que colidem na rua e mãos que seguram seu copo.
O tempo nada apaga quando a memória é vingativa.
Eu seria feliz se tivesse ainda passos que chegam pelo corredores, enquanto coloco comida no seu prato.