domingo, 16 de setembro de 2018

trinta e oito elefantes de guerra

Janaina nunca soube quando os elefantes foram vistos pela primeira vez. O dia tinha começado com a taquicardia de um vento insistente na janela, ela acordou antes do despertador com seu horário aristocrático e depois escovou o dente com os dedos, assim como as mães fazem com as crianças  esquecidas. Estava ainda só de camiseta e uma xícara de café oblíqua na mão meio frouxa, o olhar no infinito, lendo azulejos sem ver seus desenhos singelos e repetidos. Quando saiu do prédio já era tarde, um charme seus atrasos traiçoeiros. Ela saia para terminar seu noivado, como um moça de outros tempos. 
Foi quando a cidade se alvoroçou e bramidos foram ouvidos. Todos olhavam na direção das criaturas, hipnotizadas pela beleza da imponência selvagem.
Aníbal chegava com seus trinta e oito elefantes de guerra, para defendê-la da besta-fera, mais conhecida como o fim de um grande amor.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Romeo


um pedaço de bolo
as pernas de fora
o olhar que desvia
a moça três semanas atrás
romeo está agora cheio de seu par de asas
verona cruzando o céu
o mesmo céu. como pode?
acinzentado e distante
feito um coração
estilhaçado
em cacos de um quase-amor

o pedaço de bolo
rolando na língua
deixando 
um visgo de chantilly

na boca
na boca
na boca
no canto
do céu
da outra boca

um gemido, um frêmito, Romeo


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Sobr'ovos



- Quem nasceu antes, o ovo ou galinha ?
   Perguntou Carlos ao filho.
- Um pintinho.
   Respondeu Carlinhos ao pai.
- Mas um pintinho é uma galinha.
  Disse Carlos ao filho.
- A galinha é crescida, não pode ter nascido, sabe, grandona.
  Disse Carlinhos ao pai.
- Eu sou crescido e nasci, como eu seria seu pai ?
  Perguntou Carlos ao filho.
- Então eu sou um ovo ?
  Perguntou Carlinhos ao pai.
- Uma espécie de ovo.
  Disse Carlos ao filho.
- Eu tinha casca ?
 Perguntou Carlinhos ao pai.
- Não, você não tinha casca, mas...
- Então eu não sou um ovo.
 Interrompeu Carlinhos o pai,
que nada mais disse.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os Inomináveis.





na escala de todos os bairros brilhantes, os Inomináveis. os ouvidos entupidos de pérolas rosadas, narinas dilatadas, lábios delineados, dentes de diamante. os lixos impecáveis, as comidas alinhadas em art-nouveau, formando um arco pincelado por pastas de ovas douradas. o veludo lustrado, a prata lustrada, a madeira impecável no vão da porta maciça. os Inomináveis chegaram bêbados, champanhe ainda na mão, borbulhando antipatia.  os carros não fazem barulho, os Inomináveis estavam bêbados. o som digital da música da periferia aqui sai sem interferência alguma. você precisa ver que beleza. os Inomináveis escutam as pérolas rosadas trepidarem nos ouvidos, as narinas se abrem, os lábios tremem e começam a borrar. os dentes de diamante são azuis feito montanhas em degelo. os Inomináveis estavam todos bêbados. só se ouve a música límpida da periferia no rádio pasteur do carro sem som. a menina rebola, a menina rebola. a menina rebola. ninguém sente nada. o condomínio bem fechado, nomeado por publicitários arruinados. uma placa distinta diz paris. os Inomináveis dormem todo dia feito anjos.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Lago






seja o leão com sede
seja o leão
seja o leão
a língua do leão
eu,
a água.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A volta dos sete astronautas

2029. Logo aqui, perto das estrelas, perto de um negrume que só o universo estampa feito um tinteiro derramado, impreciso, sobre o papel branco. De vielas e becos foram feitos os pontos brancos chamados Outros Planetas, habitados por robôs adormecidos, orbitados por naves que sobrevoam sem tocar o chão.
O ano é dois mil e vinte e nove. Perto de um mundo esquecido logo ali, passado.
A Terra, sozinha como um ego que não cabe em sí. Os Outros Planetas, água impotável, ar pesado, areia vermelha, vulcão extinto, restos de mares milenares.
O ano é 2029.
Astronautas tristes homens azuis, humanos como só Terráqueos, desumanizados pela roupa brilhante de visor translúcido de onde pouco se vê e pouco se sabe. Asfixiados pelo oxigênio que dá suas vidas.
Mas no ano de mil novecentos e vinte e nove, após um salto sobrehumano, física quântica, Deus ou algo misterioso assim, uma nave vinda da Terra chega com sete astronautas no Outro Planeta nomeado outrora Kepler-186. Planeta de zona habitável, de calor, de água e outras sedes que nos cercam. Surpreendente Planeta-Irmão.
O Homem que lá chega se vê.
Praias, cidades, desejos, florestas, incertezas, guerras, passeios, desertos, crianças, mares, túneis, refeições, barulho, doenças de pele, insetos, esgoto, máquinas, livros, cabos, amizade, música e solidão. Tudo é igual. 
Mais assombroso que o desconhecido é aquilo que nos torna iguais. E assombrados os sete astronautas quiseram voltar.
Pois agora todos sabem que a mesma paisagem na janela espanta o reflexo no espelho.

domingo, 18 de dezembro de 2016

je t'aime um clamor






as cortinas abrem
ela entra
como um tiro
uma chuva de papel picado

a bala de festim

mas
espera!
a estrela triste do camarim
está gelada como uma xícara de chá no fim

então começa um fado
um aplauso abafado ?
mas e a manchete ?
e o eldorado ?

a bala da verdade

o estopim
das novidades
são só olhos os da estrela
cheios de saudade