sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Dia e Noite




escovo o dente e imagino Daniela mergulhando na água azul de um imenso mar seus cabelos flutuando como algas seu corpo em câmera lenta inverso da personalidade abrupta e complexa  dez da manhã eu penso em Daniela e o café esfria porque Daniela me dá mais ânimo que a cafeína meio-dia eu almoço comendo Daniela porque Daniela é meu coração saindo pela boca três da tarde e o sol que nunca chega nessa cidade mas quando ela chegar podemos trocar o nome dele por Daniela e o meu calor será Daniela cinco da tarde fumo um cigarro igual fuma Daniela às oito assisto a novela imaginando a mocinha beijando Daniela horas depois durmo de ciúme pensando, mastigando, sonhando Daniela 

Deus então me acorda acordo no meio da madrugada e diz "cá está Daniela".

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Paisagem


se não fosse esse meu braço direito quebrado
acenaria para os táxis laranjas
na cidade glacial
já, com alguma esperança,
pediria ao homem
mal encarado pelo mesmo
receio que carrego no peito:
'ache-a, eu suplico'
e o medo se curvaria com pena,
então o homem diria:
'ela não está aqui, mas deixou um recado"
o meu olho esbugalhado espera os dois segundos
terríveis antes de saber:
' ela não volta mais'

sábado, 29 de setembro de 2018

Para Daniela


o que foi isso se não erupção?
como se o Vesúvio inundando Pompéia
atravessasse os tempos
e chegasse até o meu coração

dizendo-se paixão
depois amor
depois cinzas e ossos

dos três dias seculares
chamados por poetas, ilusão

E então o movimento final,
o clamor de um corpo triste:

a lava
desabando
no mar




domingo, 16 de setembro de 2018

trinta e oito elefantes de guerra

Janaina nunca soube quando os elefantes foram vistos pela primeira vez. O dia tinha começado com a taquicardia de um vento insistente na janela, ela acordou antes do despertador com seu horário aristocrático e depois escovou o dente com os dedos, assim como as mães fazem com as crianças  esquecidas. Estava ainda só de camiseta e uma xícara de café oblíqua na mão meio frouxa, o olhar no infinito, lendo azulejos sem ver seus desenhos singelos e repetidos. Quando saiu do prédio já era tarde, um charme seus atrasos traiçoeiros. Ela saia para terminar seu noivado, como um moça de outros tempos. 
Foi quando a cidade se alvoroçou e bramidos foram ouvidos. Todos olhavam na direção das criaturas, hipnotizadas pela beleza da imponência selvagem.
Aníbal chegava com seus trinta e oito elefantes de guerra, para defendê-la da besta-fera, mais conhecida como o fim de um grande amor.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Romeo


um pedaço de bolo
as pernas de fora
o olhar que desvia
a moça três semanas atrás
romeo está agora cheio de seu par de asas
verona cruzando o céu
o mesmo céu. como pode?
acinzentado e distante
feito um coração
estilhaçado
em cacos de um quase-amor

o pedaço de bolo
rolando na língua
deixando 
um visgo de chantilly

na boca
na boca
na boca
no canto
do céu
da outra boca

um gemido, um frêmito, Romeo


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Sobr'ovos



- Quem nasceu antes, o ovo ou galinha ?
   Perguntou Carlos ao filho.
- Um pintinho.
   Respondeu Carlinhos ao pai.
- Mas um pintinho é uma galinha.
  Disse Carlos ao filho.
- A galinha é crescida, não pode ter nascido, sabe, grandona.
  Disse Carlinhos ao pai.
- Eu sou crescido e nasci, como eu seria seu pai ?
  Perguntou Carlos ao filho.
- Então eu sou um ovo ?
  Perguntou Carlinhos ao pai.
- Uma espécie de ovo.
  Disse Carlos ao filho.
- Eu tinha casca ?
 Perguntou Carlinhos ao pai.
- Não, você não tinha casca, mas...
- Então eu não sou um ovo.
 Interrompeu Carlinhos o pai,
que nada mais disse.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os Inomináveis.





na escala de todos os bairros brilhantes, os Inomináveis. os ouvidos entupidos de pérolas rosadas, narinas dilatadas, lábios delineados, dentes de diamante. os lixos impecáveis, as comidas alinhadas em art-nouveau, formando um arco pincelado por pastas de ovas douradas. o veludo lustrado, a prata lustrada, a madeira impecável no vão da porta maciça. os Inomináveis chegaram bêbados, champanhe ainda na mão, borbulhando antipatia.  os carros não fazem barulho, os Inomináveis estavam bêbados. o som digital da música da periferia aqui sai sem interferência alguma. você precisa ver que beleza. os Inomináveis escutam as pérolas rosadas trepidarem nos ouvidos, as narinas se abrem, os lábios tremem e começam a borrar. os dentes de diamante são azuis feito montanhas em degelo. os Inomináveis estavam todos bêbados. só se ouve a música límpida da periferia no rádio pasteur do carro sem som. a menina rebola, a menina rebola. a menina rebola. ninguém sente nada. o condomínio bem fechado, nomeado por publicitários arruinados. uma placa distinta diz paris. os Inomináveis dormem todo dia feito anjos.