segunda-feira, 4 de setembro de 2017
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
A volta dos sete astronautas
2029. Logo aqui, perto das estrelas, perto de um negrume que só o universo estampa feito um tinteiro derramado, impreciso, sobre o papel branco. De vielas e becos foram feitos os pontos brancos chamados Outros Planetas, habitados por robôs adormecidos, orbitados por naves que sobrevoam sem tocar o chão.
O ano é dois mil e vinte e nove. Perto de um mundo esquecido logo ali, passado.
A Terra, sozinha como um ego que não cabe em sí. Os Outros Planetas, água impotável, ar pesado, areia vermelha, vulcão extinto, restos de mares milenares.
O ano é 2029.
Astronautas tristes homens azuis, humanos como só Terráqueos, desumanizados pela roupa brilhante de visor translúcido de onde pouco se vê e pouco se sabe. Asfixiados pelo oxigênio que dá suas vidas.
O ano é dois mil e vinte e nove. Perto de um mundo esquecido logo ali, passado.
A Terra, sozinha como um ego que não cabe em sí. Os Outros Planetas, água impotável, ar pesado, areia vermelha, vulcão extinto, restos de mares milenares.
O ano é 2029.
Astronautas tristes homens azuis, humanos como só Terráqueos, desumanizados pela roupa brilhante de visor translúcido de onde pouco se vê e pouco se sabe. Asfixiados pelo oxigênio que dá suas vidas.
Mas no ano de mil novecentos e vinte e nove, após um salto sobrehumano, física quântica, Deus ou algo misterioso assim, uma nave vinda da Terra chega com sete astronautas no Outro Planeta nomeado outrora Kepler-186. Planeta de zona habitável, de calor, de água e outras sedes que nos cercam. Surpreendente Planeta-Irmão.
O Homem que lá chega se vê.
O Homem que lá chega se vê.
Praias, cidades, desejos, florestas, incertezas, guerras, passeios, desertos, crianças, mares, túneis, refeições, barulho, doenças de pele, insetos, esgoto, máquinas, livros, cabos, amizade, música e solidão. Tudo é igual.
Mais assombroso que o desconhecido é aquilo que nos torna iguais. E assombrados os sete astronautas quiseram voltar.
Pois agora todos sabem que a mesma paisagem na janela espanta o reflexo no espelho.
domingo, 18 de dezembro de 2016
je t'aime um clamor
as cortinas abrem
ela entra
como um tiro
uma chuva de papel picado
a bala de festim
mas
espera!
a estrela triste do camarim
está gelada como uma xícara de chá no fim
então começa um fado
um aplauso abafado ?
mas e a manchete ?
e o eldorado ?
a bala da verdade
o estopim
das novidades
são só olhos os da estrela
cheios de saudade
sábado, 10 de dezembro de 2016
mel
eu não gosto de mel
não gosto nem do seu cheiro
tampouco da sensação de mil abelhas deslizando na minha língua
doces
e pegajosas
mil ferrões se projetando para o céu da minha boca
essa cor dourada se expandindo entre os meus dentes
descendo pela garganta
se fixando perto do meu coração
se transformando
nessa colmeia de fel das meias palavras
depois
que te vi pela primeira vez
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Seu nome
eu esqueci seu nome
esqueci quando entrei na sua rua
à sua procura
à câmara lenta
flutua
cosmonauta
sua fome
do
som
que faz um nome
no gosto do seu cigarro de menta
o último suspiro
mentolado
de uma poema
que teria
seu nome
domingo, 20 de novembro de 2016
As touradas de Madrid
nas paisagens longas que sobraram do planeta, anos e séculos se passaram.
os escombros datados, colunas de pó brilhante, restos como o sal do deserto.
o nada és Terra de ex-azul, essa cor-lembrança em dois astronautas miseráveis, retidos em estátuas voltando de algum confim.
quando da descida o azul se esmaeceu em fotos premiadas irreconhecíveis,
quando na descida explodindo os tristes homens azuis
o oceano agora era uma barba branca amarelada pelo alcatrão
e os astronautas pousaram.
e andaram sobre a Terra, agora mais chão, mais Terra voltou ao pó, pois grão de poeira espacial.
então caminharam com sede, fome e saudade.
e se arrastaram até encontrar a cidade perdida, fragmentos da outrora chamada Madrid.
mas eis que a única memória sobre a cidade eram pedras de um vermelho tão vivo que os cegou.
a Terra cuspia fora os corações dos touros mortos em Madrid.
os astronautas cegos nada mais viam,
nada mais eram,
em nada estavam ali.
os escombros datados, colunas de pó brilhante, restos como o sal do deserto.
o nada és Terra de ex-azul, essa cor-lembrança em dois astronautas miseráveis, retidos em estátuas voltando de algum confim.
quando da descida o azul se esmaeceu em fotos premiadas irreconhecíveis,
quando na descida explodindo os tristes homens azuis
o oceano agora era uma barba branca amarelada pelo alcatrão
e os astronautas pousaram.
e andaram sobre a Terra, agora mais chão, mais Terra voltou ao pó, pois grão de poeira espacial.
então caminharam com sede, fome e saudade.
e se arrastaram até encontrar a cidade perdida, fragmentos da outrora chamada Madrid.
mas eis que a única memória sobre a cidade eram pedras de um vermelho tão vivo que os cegou.
a Terra cuspia fora os corações dos touros mortos em Madrid.
os astronautas cegos nada mais viam,
nada mais eram,
em nada estavam ali.
domingo, 13 de novembro de 2016
A morte de Brasília
Vimos Brasília logo no início dos tempos - como os olhos de urubu na carniça, logo que o arquiteto desceu com seus olhos - esse não só olhos, mas o brilho - eu dizia, vimos Brasília logo no início como vêem os urubus, pois destroços. Destroços de corpos arruinados, a cidade era ruína, eu ia dizendo. Construída já ruína, arquitetada com o calor dos desertos dos trópicos. Brasília era areia. Moveu-se movediça através das histórias. Assim como os urubus, o traço da linha no papel, avião paperplane pegando fogo. O fogo dos trópicos, a desértica cidade perdida, arquitetura-arqueologia. As pessoas que lá estão, são elas os urubus e os nossos olhos. Nós, pássaros, pássaro, nós jamais voamos por sobre Brasília, pois de força bruta jamais se pisa e voa um sonho bom sobre Brasília. Eu ia dizendo o belo desenho, e ficou feio como um urubu sobrevoando a morte.
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