quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

amanhã

tenho vontade de segurar seu pescoço até você sufocar

até as minhas digitais ofuscarem as suas pintas
até você sentir a intenção exata dos meus dedos
até você entender o quanto admiro e quero arrancar seu cérebro por pura inveja
até o mundo girar a sua volta
até Ele voltar a falar comigo
até meu medo desaparecer
até o seu medo passar
até a minha mão afrouxar porque no fundo te matar em mim é uma besteira

até você me olhar de verdade pela primeira vez na sua vida

domingo, 24 de janeiro de 2010

você escrevendo nos livros





lembro das suas dedicatórias tatuadas nas páginas brancas, que antes pareciam desfalecidas...
... são brasas de ferro e fogo queimando meus dedos envelhecidos.
o que você escreve não se diz e só Deus, na sua infinita bondade, entende mesmo assim a saudade que eu sinto.

( e quando eu penso ter chegado na última palavra, você volta e reescreve tudo )

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A casa.

Tudo finda. Um coração jogado no lixo, apodrecendo entre espinhas de peixe e camisas ensanguentadas. Um lar bem decorado e o cachorro envelhecendo cego. Tudo finda. O cheiro do incenso misturado ao cheiro do sexo perturbado. Tudo finda. O livro esquecido, o leite derramado. Tudo finda, minha cara.
Até o grande final, em um campo de margaridas incineradas, explodindo em ilusões fétidas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Toda doçura será castigada II

um chão Liechtenstein coberto de confetti derrete no verão mastigado.
Um All star bem branquinho com o solado engordurado.
Suas palavras são tão mentiras e eu sigo bem atrás dos seu passo.
Desligo o ar-condicionado e cubro a verdade alheia.
Paredes vermelhas. Embaraço.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

bolas de tênis espaciais

Conseguindo bater na bola bem no meio da raquete, com muita força, na vertical, ela iria voltar depois de transpor uns 2001 andares. A nossa imaginação voava junto e chegava lá onde as espaço-naves estão mergulhadas, boiando coloridas. Meu irmão conseguia. A bola amarela por um instante era a bolinha de tênis. Uma laranja. A lua. Uma pinta Napalm no céu. Uma pinta Napalm no céu. A lua. Uma laranja. Ela está voltando. Uma bolinha de tênis saindo na vertical bem do meio da raquete. Achava aquilo o máximo, coisa de menino, porque eu era menina e não conseguia. Eu conseguia passar para a fase seguinte nesses jogos de pular, com barulhos fosforescentes e cores comestíveis. Jogos para meninas. Porém, somos duas. Gêmeas. E meu irmão é um só. E ainda por cima menino. E nós duas. Vida dura a dele, castigo divino nascer homem. Rubis nos olhos nascer menina, rosas amassadas, rubis sangrando nos olhos. Nascer menina. A bolinha subia 2001 andares e nós iguais e terríveis. Terrível. Terríveis. As duas bonecas-iguais-sem-cabeça. A estante enfileirada de bonecas-iguais-sem-cabeça prontas para o desfile. Meu irmão lançou os dados : “ Elas não são como as outras. “ E eu. E ela. Tramando. Agora, estamos aqui sentadas na frente dos consoles, os olhos brilhando avermelhados. Uma frustração dupla. O dobro da imensidão de uma dor solitária. Mar vermelho. Double Blood Mary. No dia em que ele tentou interferir de verdade uma terceira sombra vermelha se fez. Nenhuma de nós duas conseguiu passar a bola de tênis para a outra galáxia sem a ajuda dele. Menino bobo.

- Que cara é essa, meninas ? É só um jogo bobo.

Que coisa. Ele até confirma.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

4-3-3

O olho exageradamente periférico feito uma mosca fugindo do ataque. Estou pisando onde
milhões de espelhos foram quebrados e há um zero à esquerda.
Carrego no pescoço binóculos rachados pela inconstância do meu olhar.
E tudo posso ver.
" Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo ?"
Não admito uma equipe que não no ataque. 4-3-3.
Um rasgo zunindo laranja, a revoada de balas douradas.
E todos foram dizimados pelo meu frenesi sem razão.
mas...

" Estala, coração de vidro pintado!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

toda doçura será castigada I

aqui os caramelos derretem no fogo lambendo o dia

é o meu rumo, minha asfixia
marshmellows que eles não são

e tudo que era doce, agora é só carvão.