sexta-feira, 12 de junho de 2009

coração ao molho pardo.


Não tem fogo, nem colheres fumegando. Não tem pista, nem escravos respondendo. Meu coração partido em sete pedaços, garfos vermelhos são usados. Toalhas sem bordados, margaridas de plástico. Sou mesmo muito perigosa. Sou dessas que não desistem e não acreditam tanto nas mentiras -a única mentira que me dou ao luxo é dos amores mal contados. Não tem calor, nem pratos bem feitos. Tudo o que está sendo servido é cru, frio e famigerado.

domingo, 7 de junho de 2009

Cherry Coke

Georgia tira os pés para fora da limosine, adornados por salto 15, seus olhos latejam em cima de Luana, virando um copo. As luzes são cegas, Las vegas em blackout, com festa, sem siso. As casas passam correndo diante da visão dublê caído. Vãos negros entre elas cheios de uma pequena sujeira. O carro pára. Georgia desce sem mangas, sem saia, sem norte. Entre a negritude das vielas, o branco dessas pernas parece fio-dental passando entre os dentes. Luana corre atrás, sem saber o porquê. Nem que saiba, somos alheios, feito ela. As pernas, todas elas, titubeiam perto de poças de cristal líquido. São aqueles olhos que veem brilhantes. As pílulas boiando no champagne fazem agora efeito. Georgia não dança. Seus pés dão a volta na lama, deixando um rastro de lesma. Vírgula, corpos angulares. Luana deita em cima dela. Milhões de buracos de fechaduras giram a chave e espiam assustados. A limosine é multada. Elas riem.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

exposição.

páro como um palito de fósforo no átimo antes de queimar. o relógio gira os ponteiros, alguns sem mostrar. tão simples o momento. o que teria acontecido se tudo tivesse sido apenas o retrato ? Quantas lembranças durante uma vida do tal retrato ? o tempo de um palito de fósforo queimando ? Contudo, só as conjecturas não bastam à verdade. Os relógios não derretem, mas o amor ainda empalidece, e a ausência física de um Dalí não o diminui.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

partida de futebol

Seth reuniu uns meninos com meias que chegavam em seus joelhos. Vermelhas como seus hematomas pós futebol. Ele me disse que as bolas altas são inglesas e que as rasteiras são latinas. Eu até já sabia. Seth tinha as suas arriadas e eu só conseguia olhar para as suas meias. Ele levou a bola, o líquido azul e o treinador, que era o seu Antônio. Seu Antônio ficou sentado ouvindo um rádio bem pequeno colado no ouvido. Seth não fez gol, mas olhava o seu Antônio e ria. E aí sim era gol. Na hora da saída ele defendeu sua cobrança de falta no céu e minha presença inesperada no meio de 22 meninos-pimbolins. Seth sempre faz vários gols.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Fábula

Olha, como as coisas são, onze mil uvas caem sem avisar
e entulham seu chão
O fim da carta, sumia, não tenho pretensões
não descubro nada nada sou Caminha
O que você quer é um sopro em um incêndio
Só eu sou a raposa de Esopo
No fim, me resta o compêndio.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Pólo

O espaço era branco e frio, mas há aquele teto tão instigante como só o azul sabe ser - era o céu de todos. Os pés pisando fofo. De longe, eram pontos pretos no alvo. Essa claridade, essa sensação de solidão reprimida pelo toque ao lado... Um milhão de pés juntos ou algo como a sensação de um milhão. Sensação de um milhão no quadrado apertado. Só que no final, quando todos saem de casa, os pinguins invadem a geladeira. O sumiço dos quindins, dos pudins, do yogurte de morango, cai nas costas dos mais gordos da família. E a coleção dos pequenos bichinhos de porcelana cai na gargalhada.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

a quântica do mundo.

Uma xícara de chá, amanhecida, numa manhã de inverno.
A beleza volátil do amor.
Dois velhos implorando perdão.
Entrar em uma igreja com os pés quase limpos.
Voltar ao início cruel de meus pensamentos.
Lamber seu braço, sentir o sal.
Saber o mundo, igual.
O que eu sei, desigual.