sexta-feira, 1 de março de 2013

Garotas Ruivas no Fuso Horário de Tokyo







Um tilintar de xícaras, efusões e noções argumentativas sobre a vida. Cerejeiras destruídas por mãos fortes e delicadas. Os dias nascem aos gritos, em horários nunca antes conhecidos. Ao seu modo, sobreviver com café forte, cigarro e textos proibidos. Uma explosão de luzes sobre olhos fechados. Desço a rua comprar balas, caminho sobre os restos de uma fábrica em perfeito funcionamento, sou atirada à cães e prostitutas. Um homem de terno bem acabado descobre meu esconderijo, puxa uma faca e atira certeiro sobre meu coração tatuado.

















segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O peixe de olhos esbugalhados.









Notou um brilho na ponta de seus cabelos, pareciam cobertos de geleia de laranja. Mantinha as mãos nos bolsos, disse que não queria café, não queria comer e não tinha sede, só sentia frio. Paulo nada notava, a esposa sempre foi assim, uma floresta inóspita cheia de mistérios e bichos arredios. 
Laura perdeu a aliança enquanto as ondas batiam em suas costas. Ninguém consegue manter a mão no bolso por tanto tempo. Também não faz tanto frio assim no verão, nem se consegue viver para sempre de amor, a casa pede a mesa posta, os alicerces seguros e rumores serenos.
No começo do inverno um peixe de olhos esbugalhados engoliu um anel de ouro.
Paulo quebrou um dente ao sair para jantar.

















segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O canto do canarinho.







A janela do meu quarto é baixa e, mesmo que fosse alta, ele não liga. Salta com a gordura balançando e a destreza dos sábios. Júlio tem ares olímpicos. A janela fica aberta, mesmo com esse frio, só para ele entrar. Todo dia ele me traz um passarinho morto. Morto. Eu não consigo explicar a minha dor, a dor das coisas mortas, das penas se soltando, do peito azul. Outro dia um bem pequeno ainda teve tempo de se debater sobre o edredom da cor do céu, no meu peito. Ele ainda olhou para mim, com esse olhar que só os gatos têm. Estava me olhando e tentando me explicar cada presente. "Um dia ainda te trago um canarinho cantando pela última vez e você vai entender o tamanho do meu amor ".















terça-feira, 13 de novembro de 2012

Popball










jogando popball
garotos inteiros sem camisa
com o sol
intimidando
outros lindos que jogam futebol


no rádio uma bola de ping-pong
cai
it's amazing Britney's song

enquanto isso na sacada
as meninas rãs
rasgam sutiãs
tão queimadas













sexta-feira, 9 de novembro de 2012

100 m da linha do equador









Quente, quente, quente. Daqui, olhando para o alto, o teto tem uma fenda de onde o sol entra e risca a linha do equador bem no meio da piscina. Abaixo os erros estão todos embaralhados. "Uma menina de treze anos não pode ter esse olhar tão incessante sobre curvas e estrelas". Os peitos nus dos atletas incansáveis, medalhas douradas, um mar de suor e o desejo te derrota. Braçadas, braçadas, braçadas. Meu nariz está encostado no vidro embaçado. Sabe, seu olhar frio deixa esse calor mais ameno...
















sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Os lados da rua









vejam quantos passos até lá  :

os cantos de uma casa
onde ninguém fica
e a poeira se acumula

em novos casais estrangulados

chegando com malas e medos
arrumando gavetas
arrastando móveis pesados

e depois saem
atados

como nós

um laço para cada lado










quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Esmalte










Tão dramático pintar as unhas de preto para um adeus bobo e melancólico. Deveria ter maquinado algo menos estúpido e esquecer isso, deixar para lá, como um poema ruim lido pela metade. Tenho a cabeça abaixada e as mãos trêmulas, vejo o seu vulto passar pela janela, a mochila esvoaçando sua pressa como uma única asa que sobrou da luta. Vermelha. Leve daqui seus cremes, suas canetas e estiletes. Desisto de unhas pintadas e arranho o peito, deixando marcas.