quarta-feira, 1 de junho de 2011

Desengano.





Levei de seus olhos aquela negra previsão do futuro. Disfarçado em casa, em flores pelos cantos, em gatos passeando no teto. E eu desmaiava nos vincos que se acumulam em dias que, assim, transbordavam verdade. Não se engane, mesmo assim nada mudou. Relógio sem ponteiros. Asas sem função, paradas. As linhas da minha mão seguem um rumo exato. E não se engane. Nada mudou. E se há um segundo que se preze em um coração estagnado, será de percepção. Porque nada mudou. Aquelas asas, sem mais mistérios, pousaram bem ao seu lado. Brilhando.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O campo






Em um campo de papiros flamejantes, vigiado pelo mais bonito dos demônios, amei você.

O que é o passado senão a fumaça etérea desse livro atrás de mim ?
O que é o passado senão o olhar demoníaco que me acompanhou até o fim ?

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Nascer do Sol



Diana come maquiagem e enrubesce dez anos, enquanto todos olham suas olheiras uniformes e seu salto 15. Diana não adormece. Seus sonhos são arregalados e suas pernas estão formigando, enquanto homens sem dó vigiam suas pérolas aniquiladas. Diana não compreende. Levantar seria uma lástima e o veludo vermelho enternece. Diana sofre de náuseas, moribunda e dourada, enquanto garçons com asas servem copos de líquidos ensandecidos. Diana sofre calada. Um grito assusta os velhos perfilados e Diana olha para o lado. Um ranger de dentes define o caos de uma vida estatelada. Diana dorme, definitivamente e empoçada.

história de ninar



um lobo vestido de vampiro
bate de porta em porta pedindo doce e o que mais tiver
na primeira casa, em frente ao milharal, um porquinho
abre e o enfrenta à mão cheia com balas prateadas de anis
na segunda casa, em frente a madeireira, um porco sem asas
abre e o enfrenta a pão de alho, na falta precisa de adocicados terminais
na terceira casa, cheirando churrasco, em frente ao lamaçal,
caçadores comem costeletas e mousses, enquanto o lobo é
o homem do lobo do homem-porco

quarta-feira, 13 de abril de 2011

bolinhas de gude, de Laís para Chico.








Chico tinha seis anos quando um par de olhos castanhos quase pretos brilhavam na sua cara, como bolinhas de gude vitoriosas, gritando para ele se comportar como um homem. As palavras soavam estranhas e perdidas neste espaço dos seis anos, Chico não entendia como uma menina de cabelos retintos e pele branca, da cor de travesseiros novos, poderia fazer seus ouvidos doerem igualzinho quando o avô ligava o carro com todo mundo já lá dentro. E Laís mandava como a mãe mandava a empregada enxugar o chão, de olhos arregalados e coração endurecido. Só que Laís também sabia ser menina e deixava uma escova de dente para ser compartilhada ou um bombom recheado, fingindo nem saber de Chico. Sozinhos, ela mandava e desmandava, transformando o medo em amor, sem nenhum entender o que era isso - mal sabiam eles que ninguém nunca vai entender. Durante três anos as bolinhas de gude batiam contra Chico, escovas de dente eram desgastadas e bombons sujavam o uniforme da escola. Até que Laís se foi e nenhum adulto explicou porque tudo se vai. O amor, escovas de dente, bombons. E Laís.
Ontem a noite perguntei porque Chico é calado e ele me disse :
" Estou com saudade de uma pessoa, mas não posso dizer quem."






terça-feira, 5 de abril de 2011

espinhas de peixe




Encontrei você sendo chuva e vulcão, escrevendo laços em uma caderneta amassada. Com um olho aberto e o outro fechado, acreditei dando mordidas em espinhas de peixe que transpassaram minha garganta, sufocando. Depois acreditei mais um pouco e abri as portas, a garganta e o outro olho. Mas já estava cega, já estava este morcego anêmico batendo contra a parede. Esperneando nos vãos, com estes espinhos que se instalaram como fim no peito, chamando isso de amor. E, enfim, desacreditei.