quinta-feira, 21 de outubro de 2010

911 Donuts

Cinco crianças ficam ali paradas por cinco minutos. As mãos espalmadas na vitrine. Uma montanha desajeitada de Donuts de todas as cores, todos os sabores, todas as coberturas e todos os cheiros caem sobre nossos olhos. Mais adiante, cinco viaturas policiais distribuem sirenes e luzes girantes. De repente tudo pára. E ninguém sabe quem procurava as digitais de quem. Policias contra ladrões que assaltam confeitarias ou a moça da limpeza armada de paninhos limpantes contra dedos de crianças açucaradas. Pois crianças e policiais, e até ladrões, comem doces.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

com amor,

para Marcelo Cavadinha


Daqui a pouco chega o Marcelo
eu escondi para ele
o lado onde meu coração é mais sincero
num pacote de caramelo.

também vou escrever para ele

na parede de milhões de castelos
que só meninos tão singelos
podem se chamar Marcelo

mas que só para este Marcelo
posso escrever "amor"
nesses milhões de castelos

Porque para um príncipe é assim. e fim.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

The End

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coloque seus olhos neste vazio.
globo ocular em escarlate.
duelo. desafio. corações que só preenchem caixas de chocolate.
congelados e bem embalados.
caramelos estragados.
jantares desabrigados.
um corpo num filme de Hitchcock.
caído para o outro lado.
dois outros em constante choque.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Deixe seu recado

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Vou desligar meu celular
e você vai cair para sempre na caixa-postal
Após o sinal, se você esperar,
meu silêncio será colossal.
Vou também fazer uma resposta automática para meu e-mail
E lá estará escrito, em caps lock gigante : " Você é seu maior devaneio"
Vou também contratar uma pessoa para ser o meu espelho.
Ela vai sair na rua para mim, comprar o sal, comprar um rim,
ler a primeira página do jornal
e dar bom dia
E eu vou estar embaixo da cama
lendo poesia
soterrada
chorada
na lama
escrevendo no chão :
" No meu peito não tenho mais nada,
nem coração...
Sua ladra!"
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

" Carta de amor enviada em um canhão" *

Eu botei uma praga em você
Fiz magia
Fui na bruxa
Fiz caveira
Simpatia
Deixei despacho na rua
Que é pra você se arrebentar toda
Espero que você exploda
Que seu corpo inche
Risque estrias
Seu cabelo queime
Seus olhos sequem
E seu umbigo desmanche
Quero ver você sofrendo
Chorando uma tempestade
Parindo um elefante
Vomitando um edifício
Encharcando a enfermaria
Quero que seu coração imploda
Eu quero que você vire uma hemorragia
Que não saiba se encontrar
Que beba o veneno
Encontre a bomba
Suma, desapareça
Teu nome está no buraco do mundo
Tua foto queimei no sapo
Teus presentes enterrei no saco
Eu quero que você se apague
Se enforque nos lençóis
Que o mal te esfrie
Que assaltem teu ouro
Que tua casa pegue fogo
Teus parentes mortos
Teus amigos te traiam
E um negão desmarcado trepe contigo
E você não possa mais andar
Que perca dinheiro
Que não consiga mais emprego
Que as pessoas te xinguem ao passar
Que o piano caia na sua cabeça
Pise na merda
Escorregue na banana
Perca o sono
Seja rejeitada, cuspida, escarrada
Que lhe falte abraços
Que lhe falte beijos
Que conheça o nada
Eu botei uma praga em você
Que é pra depois, assim...
Você volte em passos lentos pelo jardim
Suplicando pra voltar pra mim
Não há nada
Como amar
Uma mulher
Toda arrebentada.
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* Esse poema de admirável poder de fogo é de um menino
de olhos azuis e sincero talento. Também queria escrever assim.
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O Gabriel Pardal está aqui
: http://www.nomedacousa.com
e aqui neste poema acima
http://www.youtube.com/watch?v=ACgzqtvYwTg&feature=related

domingo, 26 de setembro de 2010

Rumo

Soa delicado o som de seus pés em corredores infinitos. Esse vazio agora é só mais alguns obstáculos dessas intransponíveis solidões. Parece difícil ? Não é. Acostuma, como cortes em árvores para marcar de onde veio. Na volta você reconhece e ali está, pertecendo a ela, ao seu caminho, aos retornos ou pelo menos a possibilidade que teria existido de retorno. Nem que ele não venha. Nem que ele não deva vir. Pertence ao desejo, ao amor que você ainda esconde, negando-o. Para o bem ou para mal. Escondendo frêmitos, choros e ilusões. Como expor fragilidades fosse derrota. Não é. É só medo. E coragem. E intensidade. De aventuras em florestas com árvores que precisam ser marcadas. Ou você não vai reconhecer, nem a você mesmo, nem os seus sentimentos... sejam eles quais forem.
Nem o som de seus pés em corredores infinitos. Indo. Vindo.

sábado, 25 de setembro de 2010

recusa

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está terminado o que ainda iria começar
pois nem o céu vai te abrigar
um nó na garganta
para esse gesto que esquece
porque nesse lugar em que estas
só o inferno te aquece
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