terça-feira, 21 de setembro de 2010

nas soleiras das portas

Peachies esfregou as pontas do sapato na poeira da soleira da porta, um pensamento norteava em volta. No meio da sala, suas coisas pairavam absortas. Ela estava achando aquilo tão esquisito, suas coisas. A soleira da porta nunca notada. Peachies estava mudando. Incontrolável. Tinha esquecido tudo, a vontade de cigarro, os nervos frágeis, o falso amor. Estava tudo encaixotado. E Peachies parada na porta assustada sabendo para onde ir.
Mas aí teve o átimo de traição. E o prego fincando na parede, grudando erros. E o maldito filme francês. E os gansters. Bandidos. Mafiosos. E botas de cowboy. E chocolates no elevador. E as músicas. Fivelas, grampos esquecidos. E a única frase que entendia ela por inteiro, aquela que nem você sabe que fez.
Peachies bateu o sapato no chão, tirou a chave da mochila e trancou a porta. Seu pensamento iria traí-la por toda a vida, mas ela não estava mais interessada.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

a garota dos olhos de meteorito

Parece que o mundo está passando em slow.
Alguns dizem que é amor, outros que é só o que eu sou.
Seus olhos piscam lá no infinito
e meu limite apressa
na incandescência de dois meteoritos.
meu desejo desespera na sua distância
trazendo vento, pérolas e ânsia.

domingo, 12 de setembro de 2010

nos dias em que a chuva chega

Nem um pedaço de céu azul. As nuvens cinzas se espalhavam uniformes até o horizonte. No gramado, o gato branco sentia as gotículas finas como poeira se colocarem a esmo sobre seu pêlo aveludado. E devagar, ritmado como só um gato é capaz, entorpecido pela sensação, ele se esgueira para baixo de tábuas encostadas no beiral da casa.
No vidro da janela, gotas maiores começam a deslizar, limpando a sujeira em riscos verticais. No sofá, uma criança começa a bocejar. De repente parece que a chuva pára. A criança rola para o lado, abre o olho, insone.
Do outro lado de um outro lugar, um pretume assume o firmamento que cobre um parque. O sol correu como uma bola de futebol e nada mais se viu que remetesse a ele. Nuvens grossas e negras se prostraram definitivas. Os visitantes, os mais temerosos, correram se abrigar antes que tudo acontecesse, enquanto os mais aventureiros se aninhavam feito pássaros na hora de dormir, em ninhos improvisados por ali mesmo. Essa chuva que estava vindo era das feias. Ela veio e desaguou formando pequenos riachos e correntezas provisórios. Nos carros ao redor do parque, crianças e adultos experimentavam o torpor. Na grama dormiam os pássaros desajustados.
Em um outro extremo de outro espaço, atletas esguios foram surpreendidos durante uma longa maratona pelo erro da meteorologia, que teria dito que a tempestade só viria depois da corrida terminada, agora estão lá estatelados sobre o asfalto em profunda modorra.
Aliás, nesses tempos, a meteorologia detém importância única. Aqueles que não querem ser apanhados sem guarda-chuvas e capas impermeáveis no meio da rua, devem estar atentos e inexoravelmente informados. Ou o sono vai chegar.
Ninguém sabe ao certo quando tudo começou. Foi tarde o momento em que todos se deram conta. Tempestades de sono caiam sobre a Terra.
Como de costume só com o sol se consegue levantar, mas não é mais como de costume só dormir quando a noite chega.
Tudo mudou e os raios mais fortes avisam pesadelos sendo constituídos. Nenhuma alma está segura da letargia quando a chuva começa a tilintar no telhado. O que antes parecia água, agora são devaneios do profundo sonho humano.

sábado, 4 de setembro de 2010

A Evolução das Espécies

Seth passou a mão nas linhas dos textos, lendo com os dedos sujos de açúcar. Um pacote de jujubas vermelhas, laranjas e amarelas se destacavam em cima da pilha de livros azuis, de capa dura, difíceis como um caminho de mata fechada, ceifada com vontade e sem preguiça.
- Eu estou lendo todos eles!
Eu já sabia que ele nunca desistiria. Os dicionários com mapas de linhas coloridas à mão, rios que atravessam e desembocam em surpresas. Seth sorria cada vez que encontrava uma resposta. E devorava jujubas feliz da vida.
Peguei o penúltimo livro de letras douradas e li : " A expressão da Emoção em Homens e Animais."
Seth estava todo concentrado na nossa biblioteca.
E eu sentia uma espécie de amor infinito como o símbolo matemático, tatuado para sempre.
O que nem Charles sabia é que estava diante de mim o menino mais evoluído nessa história toda de simpatia, mascando doces para sempre com a beleza terna dos leitores ávidos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

a distribuição.

Casas com bordas de plásticos resistentes, anti-choque, anti-gente, anti-gatos, e varandas com grades brilhantes, suspendem no ar. O oxigênio espesso invade os tapetes de milímetros a mais e alguns pulmões resistentes, anti-sujeira, anti-gatos, anti- inferioridade, adornam pés descansados, afoitos por maciez sem importância, visíveis só lá de dentro. Embaixo das varandas suspensas, tapadas por flores holográficas de beleza só visível por aqueles que se escondem por trás, uma multidão olha para cima. É hora do almoço. Gatos famintos miam e se arranham entre o empurra-empurra nos seus melhores dias. A multidão aprendeu a ficar em silêncio, o som é do atrito de roupas, de solados gastos, se arrastando há anos. Mr. Doctor, Mrs. Doctor e Little Child esperam o momento mais divertido do dia – a distribuição. Uma fileira de casas se estende por quilômetros a perder de vista, todas emergem ao céu, colorindo a visão para cima, preta como carvão. São pontos de imensidão dourada, mas é melhor nem pensar sobre isso. Não há beleza quando se olha de baixo. A multidão se alvoroça sigilosa, enquanto em alguns minutos, os moradores das nuvens suspensas devem terminar as refeições e aparecer como anjos de asas carregadas e murchas. Na hora que eles quiserem, a obrigação por lei, entre meio-dia e duas da tarde, é que qualquer sobra deve ser dada a multidão. È obrigado sobrar, mas não tem importância nenhuma a quantia. É obrigado ao membro da casa suspensa ser ele mesmo o prestador do serviço, questão de bondade. E também de prazer, mas é melhor nem pensar sobre isso. Os animais do chão, humanos ou não, apreenderam o momento e a chuva de restos vai começar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

a boca fechada e seus olhos castanhos

eu quero seus braços, seus filmes, suas luvas
o rosto vermelho cravando suas unhas
a supernova explodindo os mesmos riscos
um universo dormindo e um quarto de risos

eu quero seus lábios, seu livro, sua faca
os dedos cortados exalando ressaca
a lava subindo queimando suas mãos
certezas surgindo em becos e vãos

eu quero suas mentiras, seu perfume, seu salto
a boca fechada escondendo sobressaltos
eu desisto sem medo dos outros estranhos
colorindo com sangue seus olhos castanhos

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ponte Aérea

Para Thiago Pethit




Versos modelam mapas em fôrmas de nuvens sobre São Paulo, evaporando pensamentos que dão a volta ao mundo em dez partes, gentis como cores desconhecidas. Buenos Aires é uma nobreza pelos cantos em cafés que escondem cubos de açúcar instigando distrações. Liquices e chocolates quentes agora vão desmoronar qualquer esquecimento. Três bebidas atrás o escritor se redime com mais uma idéia rimada em quatro estrofes geniais. Uma vespa amarela passa com um rapaz de ipod brilhante mascando mm’s, explodindo olhares em atenção. A canção tristonha o faz chorar. Dói porque é bela e lembra qualquer coisa que faz amar.