Ludo rasgou o pacote de figurinhas que vem dentro das panquecas do Shiva's.
Uma luz neon fez seus olhos brilharem e ele observou cada uma delas com a atenção devida só dada aos gurus.
Ludo meditava. Seu sonho era morar no topo da montanha azul de neve alaranjada que ele enxergava da janela. E comer só panquecas.
Ele se imaginava em constante levitação, constante sombra de Lótus.
Panquecas de queijo soltavam cheiro pelas mesas lotadas. Ludo meditava. Chefs vestidos com túnicas brancas arremessavam e elas giravam feito bússolas em direção ao monte.
Ludo queria passar a vida comendo panquecas.
até completar o seu álbum.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
no céu da minha boca uma língua em espasmos peçonhentos
desenrolo caramelos e anuncio novidades ao céu da minha boca.
já tão acostumado a sua língua venenosa...
... secou de saliva esperando amor ou qualquer outro tóxico que vier.
já tão acostumado a sua língua venenosa...
... secou de saliva esperando amor ou qualquer outro tóxico que vier.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
a casca do caracol
Ela cravou seus olhos nele. Aquele olhar de pedras escondidas em sarcófagos desconhecidos. Um olhar de milhões de anos. Logo, ele não sabia nada do que significava tudo isso. Nem o esgar. Nem o desconforto. Nem o silêncio do gesto. De todas as expressões que sucedem o fim, a calma se torna a mais fatídica de todas. E não há choro, não há gritos, não há nenhum rumo a seguir. O que ele sabia, no entanto, era que tudo fenecia. E sua vontade de algumas semanas atrás de cavar fundo no interior dela para chegar em alguma verdade, se esvaiu feito uma casca de caracol sendo esmagada por pés bem firmes. Ela tinha se abrigado em lugares inalcançáveis, onde nenhum homem seria capaz de chegar. Um lugar onde o alívio não está. A beleza não chega. E, ora, nenhum coração pode superar tamanha solidão.
Foi então quando ele entendeu.
E ela seguiu feito uma lesma com aquele rastro prateado e viscoso, mas decidido. Não se sabe quando ela chegará ao fundo do labirinto, mas isso não interessa mais a ele. Talvez, daqui outros milhões de anos, um arqueólogo cansado tirará a pedra certa e os olhos ofuscados dela descubram uma luz que alguém poderá titular como o novo sentimento humano.
Outra hora chamado erroneamente de amor.
Foi então quando ele entendeu.
E ela seguiu feito uma lesma com aquele rastro prateado e viscoso, mas decidido. Não se sabe quando ela chegará ao fundo do labirinto, mas isso não interessa mais a ele. Talvez, daqui outros milhões de anos, um arqueólogo cansado tirará a pedra certa e os olhos ofuscados dela descubram uma luz que alguém poderá titular como o novo sentimento humano.
Outra hora chamado erroneamente de amor.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
três celestes venenos.
Três meninos divertidos esbarram as asas nas portas giratórias. Se eu continuar olhando dia desses eu saco essa viagem pelo coração de líquidos venenosos que chamam de amor. Uma fumaça azulada sai pelo nariz do homem sentado ao meu lado, ele me olha com olhos de morte e eu viro a cara bem decidida. O saguão está cheio, todos sentados em bancos de madeira envernizados por pensamentos perturbados, mas eu não estou lá muito preocupada. Mantenho um sorriso de lado nos meus lábios de gloss caramelizado.
Mas o grande momento do dia é quando meu olho se abre intenso, porque agora os meninos divertidos saem voando. Seria o tal veneno ?
Mas o grande momento do dia é quando meu olho se abre intenso, porque agora os meninos divertidos saem voando. Seria o tal veneno ?
terça-feira, 20 de julho de 2010
Playground
A joaninha atravessou o seu braço e ele observou seu movimento de cócegas com um olhar esquisito de atenção.
Foi quando ela chegou no seu dedo indicador que ele esticou para a frente do meu nariz, girou e a esmagou com o dedão apertado contra o outro. Creque. E sorriu.
Eu não lembro bem porque não se pode lembrar de quase nada com a anestesia percorrendo as veias e os meus olhos estavam mergulhados em água como se eu tivesse dentro de uma piscina. Só que eu lembro do insetinho doendo diante do meu nariz. E do biscoito recheado com uma mordida de monstro derretendo nas minhas mãos trêmulas.
Foi quando ela chegou no seu dedo indicador que ele esticou para a frente do meu nariz, girou e a esmagou com o dedão apertado contra o outro. Creque. E sorriu.
Eu não lembro bem porque não se pode lembrar de quase nada com a anestesia percorrendo as veias e os meus olhos estavam mergulhados em água como se eu tivesse dentro de uma piscina. Só que eu lembro do insetinho doendo diante do meu nariz. E do biscoito recheado com uma mordida de monstro derretendo nas minhas mãos trêmulas.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O Homem
Acuada e nervosa como uma gata presa espero às seis, às sete, às oito e, finalmente, às nove. Bem no horário que você me disse que chegaria - chegou. As outras batidas do relógio de parede eram só esperanças rançosas de que o mundo estaria armando para me surpreender.
Chegou assim, com aquela barba por fazer, despontada, hirsuta. Caminhava com aquele ar de gangster encrassado na descendência italiana, mas os seus olhos juvenis denunciavam a delicadeza com que eu seria tratada. Ou pelo menos acreditava que era tratada. Não tenho dúvidas. Ele abriu a porta e eu apontei o beiral da janela coberto de besouros pretos - aquelas asas crocantes e o zumbido ensurdecedor colidindo contra as janelas que transformam minha noite num espetáculo de terror. Ele vai agir e se esgueira por trás da cortina de um tecido fino e inútil que só servia para tapar o sol com a peneira e colhe os besouros para me acalmar. No seu pensamento sequer passava a idéia de me magoar com análises sobre meus dramas diários e transformá-los em pequenos chiliques incompreensíveis. Ele simplesmente compreende. E sentada no sofá eu estava quase satisfeita.
Eu não vou dizer nada e de dentro do seu bolso carcomido ele vai retirar alguma coisa para me agradar e eu nem lembro de perguntar que cheiro é aquele na sua roupa. Dessa vez um colar de aspecto barato e um pingente de bacalite escrito “Diamond” me enrubesce e, indecisa, já sei que é a hora de tirar a roupa.
O ar está espesso como xarope de groselha e meu movimento lento chega no seu rosto. Tenho medo desse mundo áspero, mas vou colher seu desejo com minha boca gemendo sobre seu peito. Como você faria se eu pedisse...
... mas nem precisa.
Chegou assim, com aquela barba por fazer, despontada, hirsuta. Caminhava com aquele ar de gangster encrassado na descendência italiana, mas os seus olhos juvenis denunciavam a delicadeza com que eu seria tratada. Ou pelo menos acreditava que era tratada. Não tenho dúvidas. Ele abriu a porta e eu apontei o beiral da janela coberto de besouros pretos - aquelas asas crocantes e o zumbido ensurdecedor colidindo contra as janelas que transformam minha noite num espetáculo de terror. Ele vai agir e se esgueira por trás da cortina de um tecido fino e inútil que só servia para tapar o sol com a peneira e colhe os besouros para me acalmar. No seu pensamento sequer passava a idéia de me magoar com análises sobre meus dramas diários e transformá-los em pequenos chiliques incompreensíveis. Ele simplesmente compreende. E sentada no sofá eu estava quase satisfeita.
Eu não vou dizer nada e de dentro do seu bolso carcomido ele vai retirar alguma coisa para me agradar e eu nem lembro de perguntar que cheiro é aquele na sua roupa. Dessa vez um colar de aspecto barato e um pingente de bacalite escrito “Diamond” me enrubesce e, indecisa, já sei que é a hora de tirar a roupa.
O ar está espesso como xarope de groselha e meu movimento lento chega no seu rosto. Tenho medo desse mundo áspero, mas vou colher seu desejo com minha boca gemendo sobre seu peito. Como você faria se eu pedisse...
... mas nem precisa.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Insônia ( mais algumas palavras abatidas sobre você)
tudo o que sei é que não houve quase nada
e onde calou afeto tatuou estigmata
estrago os dentes com café e tristeza
mastigando cacos em noites sem surpresa
tentando lembrar quais foram os primeiros planos
e onde foi que tudo tornou-se engano
e onde calou afeto tatuou estigmata
estrago os dentes com café e tristeza
mastigando cacos em noites sem surpresa
tentando lembrar quais foram os primeiros planos
e onde foi que tudo tornou-se engano
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